segunda-feira, junho 20, 2005

sexta-feira, junho 17, 2005

Uma noite pesada que nasce e se põe e se abate sobre o céu, uma a seguir à outra. Noite após noite, outra noite se abre, como um livro sem páginas e sem fim. De que cor se pinta, esta noite? De que se tinge? Cheira a mar, travo húmido de sal e algas... cobre-se de chuva ou de luz de estrelas e luar? Que sons canta, esta noite que é nossa e de todos, e de todos e de nenhum? Noite sempre houve, sempre houve luz, sempre houve sol, água sempre houve. Não. Noite começou quando um beijo não quis ser dado nem ao nascer, nem ao entardecer nem ao pôr do sol. Noite fez-se quando não se quis luz. Noite fez-se quando não se quis sol. Noite fez-se quando braços treparam por outros braços, lábios se colaram noutros lábios, coxas, pés entrelaçados, corpos nus, suados construíram noite quando vozes se calaram e no ar surgiram outros sons, mais breves, mais puros, ocos quase. Quase fogo, quase, um suspiro quase... Noite fez-se quando ombros queimaram a pele com a sede de outros ombros, noite fez-se quando montanhas de caracóis tombaram, como ondas descendo brancas em concha debruçando-se em precipício sobre o areal. Descansaram enfim, dormiram respirando um último som algures num peito aberto, exposto e esse mar indelével.

Noite fez-se. Fizeram-na beijos de sal, mãos que se enrolam e apertam corpos sem fim, só chama, só peito claro e branco e liso. Fizeram-na estes olhos, outros, todos, e nenhum... e os teus, no escuro de uma noite branca. Só canto e gelo. Noite fez-se para contornos de luz, para que horas, horas sem fim passassem por mim e por todos, e outra vez por nenhum. Noite é um rio, um rio que começa e canta e acaba, e volta a comerçar quando a noite começa. Noite é silêncio. Longamente. Noite são árvores. Árvores nuas, despidas de luz, são a noite, um corpo que se move no escuro, encontrando sempre outro corpo. Noite existe. Existem braços, existem lábios, existem pernas, "colunas gregas se anoitece", existem beijos, existe mar.

E existem os teus braços, os teus lábios, as tuas pernas, os teus beijos, o teu mar de ondas e de espuma. Existes. Noite existe. Para sempre.

segunda-feira, junho 13, 2005

E de súbito desaba um silêncio, um silêncio
sem ti...

As palavras

"São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras, orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?"

Eugénio de Andrade

segunda-feira, maio 09, 2005

Os dias queria-os de azul, azul-onda, azul olhos-de-mar. Os dias queria-os breves e puros como um sorriso. Como um segredo. Havia uma palavra suspensa ainda, mais leve que o ar. Amor. Pousou-lhe nos lábios como uma folha no chão. Sorrir. Finalmente.

domingo, abril 24, 2005

Água... um beijo quase,
esse corpo. Água... ou uma
onda de mar, azul e verde,
cristal de sal e de luz.

Água... quase mar,
o teu corpo. Quase brisa,
quase areia... um sopro.
Água, sempre quente, esse corpo.

sábado, abril 23, 2005

olhos esta manhã...
Quase que te senti abrir os

(até à minha boca.
uma lágrima que desce sozinha
um último fechar de olhos,
nascer foi um sopro de Sol,
A curva de luz que hoje vi)

Post Scriptum (invertido)
Vontade de ser um barco,
de ser mais uma das tuas ondas.
Vontade de ser um corpo,
ou um corpo salgado,
entre as tuas mãos,
as tuas mãos pela cintura.
Vontade de encostar o ouvido
ao azul do teu nome,
sempre mar, sempre céu
e falésias escuras...
(...vontade de ser gaivota
branca na areia da tua praia)

sábado, abril 09, 2005

De lábios azuis e verdes
eu te pinto; de braços de mármore
e mãos de marfim.

Tela de luz dentro
dos meus olhos.

Rasto de cor e água de ti.
Paixão, paixão, vermelho
assim.

sexta-feira, abril 08, 2005

Voltar

E de novo o sorriso de quem tem ainda tanto para lhe dizer. De novo os lábios de quem está longe mas que não deixa nunca de estar perto. Sempre tão perto, perto sempre. Longe deixa de existir quando se está tão perto. De novo as ondas suspensas em cabelos feitos de mar... de novo um beijo. Um beijo. Nunca o mesmo, nunca igual. Lábios que se não cansam nunca de tocar. Irresistívelmente construíndo outros beijos, outras águas, outros ventos.

De novo, de volta. A ti. E à pele dos teus ombros, à pele das tuas mãos. De novo. Longe não existe quando estás sempre tão perto de mim. Trago-te comigo sempre.

Fazes silêncio na cor dos meus olhos. Palavras não fazem sentido se me olhas assim. Não sei como fazes. Juro que não sei. Respiras o mesmo ar que respiro - o teu. Fazes silêncio com os teus lábios. Fazes silêncio com a pele do teu pescoço. Por onde andam as tuas mãos quando não adormeces com o teu cabelo espalhado nos meus ombros? Ah, voltar a ti como quem volta das ondas do mar para a areia quente. Gosto de voltar a ter-te de novo nos meus lábios. De novo o sabor a vento e a nuvens, o ar eléctrico, o calor dos teus olhos.

Vem sorrir para mim esta noite. A janela está aberta para ti. Sempre.
Ar...
Mergulho nas ruas do teu
sangue...

Construo com
os teus lábios um beijo
que só tu sabes destruir

Ah... ganham de novo cor
os meus olhos de te voltar
a ver...

segunda-feira, março 21, 2005

Dia Mundial da poesia
para um novo 21/3

para ti

Sair ao vento, respirar.
Mergulhar os dedos na raiz
dos teus cabelos, fugir
para ti.

Agarrar-me ao vento
dos teus lábios.
Há luz dentro e fora
de ti. Há neve nos teus
olhos. E nem eu sei
se lá fora é a chuva
ou são os teus lábios
que vêm bater à minha
janela...

Tatuagem de luz na tua pele,
espiral de cor
o recorte do teu peito.

E assim vejo minhas mãos
sozinhas percorrerem no escuro
o cheiro do teu corpo...

domingo, fevereiro 27, 2005

(Golden brown texture like sun...)

Sobes as escadas como quem chega a casa... Entras por uma porta que não é a tua, mas estás em casa. E eu estou também. Estive à tua espera como quem espera pelo vento de fim de tarde. Não sei como consegues. Juro que não sei. Estive à tua espera um dia inteiro. Mal te senti sair da cama, mas quando acordei e não vi o teu cabelo na almofada por um segundo quis correr atrás de ti, dos teus caracóis, do calor do teu corpo que não senti perto do meu. Não sei como consegues. Não te tinha visto ainda. E quando chegaste parecia que não te via há uma vida inteira.

E era a primeira vez que te via... chovia lá fora. Tinha os pés molhados, o cabelo húmido. Uma vida inteira sem te ver. Estive à espera um dia inteiro. E na verdade parece hoje que foi mesmo apenas um dia. Não estavas comigo. Chovia e eu tinha os pés molhados. Sentei-me, perdi os meus olhos entre chávenas e copos espalhados numa mesa de café. Voltei a encontrá-los quando chegaste. Sorri. Sorrias, do outro lado, não para mim, talvez para mim, já. Não sei como consegues. Eu vi-te, sorrias, estávas lá, e a partir desse dia estive sempre contigo. Vieste para o meu lado, saíste do papel da fotografia, como no vídeo dos A-ha. E Agora estás comigo, não chove e não te quero deixar.

(...lays me down with my mind she runs...)

sábado, fevereiro 26, 2005

carta... (esboço)

À luz de uma vela,
os teus olhos perdem-se...

Poesia em flor...

Onde moram as pétalas
do teu peito,

onde mora a água
da tua boca?

Onde está o ar
que respirámos
da última vez que nos
amámos sem princípo
nem fim?

Quando destróis as ondas
do mar com o teu
cabelo, e

com a seda do teu peito,
há sempre um movimento
tectónico algures
no fundo do mar...

E são tantas as ondas
que te rebentam nas mãos...
Teoria da relatividade (ou teoria do amanhã)

Não mais do que hoje, por certo. Apenas hoje. Nem um dia mais, um dia menos.
Hoje é a hora, o tempo sobreposto num corpo quente, que me queima as mãos e os lábios por mais que sopre.

Não mais que hoje... mas se é o amanhã que quero de ti...! Este, aquele, o outro, todos os amanhãs em que quiseres acordar para mim.

Hoje não existe se não existires a menos de 500 metros de mim. (risos) Na verdade não te quero assim tão longe. Longe até demais. Tenho ainda tanto para te dizer à distância de um segredo, tens ainda tanto cabelo meu para despentear, temos tanto tempo para não dizermos nada e olhar um para o outro...

Para que te quero tanto hoje que te não tenho, se te posso ter amanhã? E o amanhã quando estás parece tão inesperado, tão eléctrico, tão cheio de palavras, tão hoje. Eu sei, eu sei: para quê pensar? Para pensar serve o amanhã, não hoje, que não estás. Para nós serve o amanhã, só nós, sem tempo, sem hoje nem amanhã, que o tempo serve para nos afastar...

E as noites são tantas ainda...

domingo, fevereiro 13, 2005

Onde, a tua
linguagem de luz?
Onde, o teu
sangue perdido
diluído no meu?

E a pele dos teus
ombros, caminho
para o sol e o sul
das tuas costas? Onde?

Onde, o vento
perdido no furacão
dos teus sorrisos?

E onde o prazer,
o prazer dos teus olhos,
acesos no lume do infinito
de nós?
para um novo 14.2...

Coração Polar

1

Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.

2

Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés,
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.

Manuel Alegre

...para ti...

domingo, fevereiro 06, 2005

Hoje não te vi. Foste sem mim olhar o mar. Traz-me ondas e espuma nos olhos... traz-me maresia nos teus lábios, areia nas tuas mãos, sal suspenso no lóbulo das orelhas. Traz-me pedaços de vento e pôr-do sol, fragmentos de um sorriso teu embrulhado numa concha que apanhares à beira-mar. Hoje não te vi. Foste sem mim olhar o mar.

Ver-te abraçar o mar com os teus olhos... ver-te emprestar mais ondas às ondas do mar... Ah, mas as tuas são mais perfeitas, mais ondas. Só elas se deixam enrolar nos meus dedos, nas minhas mãos, sem me expulsarem depois de me sacudirem violentamente.

Traz-me vento do mar no teu cabelo, azul marinho pintado nos lábios, algas, conchas, gaivotas voando sobre planícies de mar salgado tingido de azul e verde... Traz-nos uma pedra do fundo do mar, só para nós. Leva-nos para o silêncio, que te quero ouvir respirar. Sim, leva-nos para o silêncio do fundo do mar, que te quero ouvir o que me diz o teu respirar.

Quando voltas? Ainda é cedo? Onde estás? Porque é o silêncio tão pesado e escuro quando não estás? Porque dói tanto não te ouvir sequer respirar?

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Era inverno
nos teus olhos...
A tua boca sabia
a chuva e a frio,
a neve a a geada.

Era inverno
nos teus olhos...
Só o teu abraço
quente e doce
me aquecia.
Só um beijo teu,
as tuas mãos brancas
de seda, as tuas
pernas triunfantes,
colunas gregas
se anoitece.

Era inverno
nos teus olhos...
Neles espelhado o mar
de dezembro, revolto.
Vaga e maré-viva,
transbordante de
maresia ardente,
ofegante de ti.
Mal cabendo no
inverno dos teus olhos.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

[outras margens]
Outras margens
de um acordar
entre as margens de neve
dos teus lençóis.

Outras margens
do teu corpo estendido
na areia,
perto do mar.
Rochedo ondulante
batido pela vaga de
um sol de inverno.
Outras margens
do teu corpo nu
coberto de maresia,
escultura de areia
pedindo mais sol.

Outras margens
das minhas mãos,
pedindo outras margens
tuas, só tuas...

A onda azul e verde
não existe se entras
pelo mar adentro.
Desfaz-se em espuma
no teu cabelo,
no teu peito,
nas tuas pernas,
no vento das tuas palavras...

sábado, janeiro 08, 2005

Aves canto de mar
saudade de sair
e ver o ondear
pendular de uma maré
Queria o perfil
desenhado a carvão
das praias e de ondas
que foram as nossas
Longe no alto-mar
das estrelas
dos teus olhos
de luar e água

Dunas da tua pele...
e a breve brisa
das minhas mãos
no teu cabelo...

terça-feira, dezembro 28, 2004

[TU]

silêncio a espaços,
sublime dor de te beijar.
cortar o ar.
lua viva,
vermelho assim.
suaves os dedos
e o teu dedilhar
de cabelos,
sangrentos de amar...

calma chuva aluvião
nuvens, pó, molhado de ti.
luz escura
e um tear de cetim.

[TU]

segunda-feira, dezembro 27, 2004

traço no papel
a tangente
dos teus sorrisos.

ah...adormecer num rio
e acordar
na tua boca.

e a perfeição elíptica
do desenho dos teus olhos.
indícios de luz fria
nas tuas mãos ardentes

deixar-me perder por sobre
todo o teu corpo...
abandonar-me à textura
do teu acaso,
sermos um cada segundo
desta noite.

Ouvir as cores
de um respirar nocturno
desenhadas no teu peito.
o timbre de seda
do teu beijo,
fulgor assim...

domingo, dezembro 26, 2004

Eu canto para ti, amor, à tua espera... Teu nome escrito com ternura sobre as águas... E o teu retrato em cada rua onde não passas, trazendo no sorriso a flor do mes de Maio... Traça o meu destino com o teu, no ar fresco e leve, na brisa do mar alto... Que eu canto para ti esta canção com lágrimas.
Vento...vento antigo
de uma saudade pungente.
sal do mar e maresia ardente,
beijos salpicantes,
fugindo...ondas navegantes.

luar, no alto-mar
vibrando ao sul
de uma aurora distante.
e o fundo do mar
ao alcance da mão, fugindo
para sempre, frenético,
pousando em doce paixão.

areia de nós,
fria ou quente.
espuma de ondas
feita de seda.

palavras de veludo,
dedos de marfim, envoltos
num beijo mudo
cor de prata.
uma lágrima que mata.

acende uma palavra e
deixa-a ao vento...
deixa-a crescer
e sozinha percorrer
as ruas do meu pensamento.
Voou, planou,
enfim deitou o seu cabelo
perto do meu.

Chorou, não chorou
cortou o ar, quis-se deitar
viajar... não ficou.

Sonhou e lembrou,
amava, já não chorava,
enfim sentou.

Respirou, falou e sorriu.
contou o que viu, longe de mim
sentiu o caminhar,
o doce pulsar
de um coração.

dormiu...

sábado, dezembro 25, 2004

cheiro de mar, do luar,
do teu sonhar espelhado
nas ondas do teu amar.

sonhos desenhados
no desenho do ar,
e um beijo recortado,
suspenso, abraçado
nas manhãs do teu acordar

geometria do teu falar,
os gestos perfeitos
do teu olhar para mim.
....saudades do tempo e do som
de te ouvir respirar.

segredos do teu ondear...

Sombras escondidas
de longas doçuras,
beijos espaçados, ordenados,
outras frescuras...

tu... e a minha saudade
viajante,
electrizante,
na luz da tua claridade.

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Nevoeiro... (ou sombras de saudade)

Nevoeiro que se constrói da respiração de quem já não tem luz a habitar-lhe os olhos. O ar escuro e cortante, frio em todos os cantos das mãos. Já é noite nos lábios que se não deixam beijar. Há, ao fundo de um quadro, alguém que se ri; ao fundo de um espelho, uma sombra que se afasta correndo e fugindo na profundidade de um reflexo que em tempos foi palpável, que em tempos conseguiu saber sorrir. Ali... o vento deixou de soprar. O último murmúrio de ar e água esvoaçante desapareceu no teu cabelo. Corres para a praia. Também o mar desisitiu, baixou os braços: não vês a espuma das ondas invadir o areal. As pegadas na areia levantaram voo. As gaivotas agora esqueceram como voar. O Sol teima em não se pôr. Os olhos que tens parecem querer não ser os teus. E queres fugir para quem tem no cabelo todas as ondas de um mar que te enche os olhos de saudade. Para quem tem nos olhos o pôr-do-Sol que não viste do outro lado do horizonte. Queres fugir para quem tem nas mãos as pegadas que deixaste na areia deserta, as tuas pegadas. Tu. Os teus olhos pertencem-lhe. Sabes disso...

Chove nas palmas das tuas mãos. Chove nos teus braços. Levantas-te e sacodes o ar à tua volta. Queres atirar um beijo para longe daí. Sabes a quem o queres atirar. E tens uma parede fria que te arrepia as costas, tens ainda chuva onde não sabes onde tens. Tens ainda olhos para ver o que sabes que queres ver. Ainda. Não tarda será noite. E a luz será outra. Chorar não adianta. Não. Nunca. Já o devias ter aprendido. Assim nunca sairás de onde te perdeste. Acordaste. Por segundos sentiste-te no chão frio de uma rua cheia de armazéns, perto de um rio. Depois foste descobrindo os lençóis onde dormias. Tens um dedo a apontar o escuro no ar. Há traços de luzes no céu, há linhas curvas que pertencem a um beijo que perdeste por um minuto, há figuras que se sobrepõem e caem, desintegram-se à medida que vais passando porque não querem existir se não voltas atrás. O céu hoje parece-te mais claro. Mas não acordaste ainda. Quando olhares pela janela verás que o céu se pintou de escuro para ti. E um fogo que te circunda e cerca os pés e que sobe pelas tuas pernas mas não te queima. Um fogo de ver, um fogo de sentir, um fogo que não vês mas que arde em ti. Em cada beijo que sobe no ar.

O coração que tens à frente parece querer bater dentro de ti, bem perto do que tens metido no peito. Há, no espaço, o desenho de uma sincronia geométrica, linhas paralelas que se deixam cruzar, eletricidade vibrante que choca contra as paredes e se desfaz em partículas minúsculas... Doces nevoeiros de beijos invadem-te os lábios, percorrendo depois o teu corpo, mesmo por debaixo da tua pele. Doces nevoeiros feitos da tua respiração vagueiam por um quarto que não se deixa adormecer. Doces nevoeiros de quem não queres que vá... Doces nevoeiros de quem queres para sempre. No ar, para sempre.

segunda-feira, novembro 01, 2004

Um ano a espreitar o pôr-do-sol de cada palavra, a vê-las amanhecer nas folhas de papel em que fomos escrevendo, a vê-las sorrir e a lacrimejar connosco. Um ano. Tanto passou. Fomo-nos escrevendo por aqui, fomo-nos desenhando também por aqui. Um ano...

Parabéns a todos nós e, claro, a quem teve a ideia de se pôr a postar e a quem se lembrou de nos "arrastar".

quarta-feira, outubro 27, 2004

Tens um poema escrito no cabelo. Doce...
Deixa-te cair da tua nuvem e vem chover nos meus lábios. Hoje...

terça-feira, outubro 26, 2004

Esquece as amarras que te prendem durante o sono e voa para mim. Sonha-me. Estou longe... preciso de ti. Queima a noite à tua volta e corre para mim. Estás cada vez mais aqui, cada vez mais comigo, cada vez mais eu. Atiro-te beijos durante a noite. Também eu queria parar o tempo para te puxar para perto de mim. Fazer-te sorrir. E não voltar a cair. Quero perder-me nas cores com que pintas as tuas palavras, abraçar a tua respiração para poder acordar. Ter-te. No coração do meu coração. Não vou hoje ter o calor das tuas mãos. Quero-te. Por onde caminham os teus olhos? Quero adormecer na tua pele e ficar teu todas as noites... Não quero fugir de ti.

Nunca.

domingo, outubro 03, 2004

Doce e amargo

Doce. E amargo.
O ar que respiro.
O mesmo que vou pisando,
recortando e reencontrando
sempre que passo por ti.

Conheço bem as ruas
que me levam a ti,
de noite...
Doce. E amargo.

Constróis um poema no ar com o teu cabelo todo feito de ondas. Páras-me no tempo e olhas em redor. Estou aqui e não me mexo. Teu. Desenhas nas paredes os primeiros sorrisos da manhã com a leveza breve e doce das tuas palavras. Faz tempo que te não sei. Hoje não durmo. Escrevo. Para ti... para nós. Não quero que nos esqueças, não quero que nos deixes a um canto de nós, a um canto do mar e das ondas. Não nos escondas. Hoje não durmo, escrevo. Lá fora, o ar fresco da noite desce passo a passo, devagar, para se vir encontrar comigo. E é assim que de repente sinto tanto a tua falta. Respiraste. E eu ouvi-te, de olhos fechados ao meu lado. Estás aqui. E onde quer que estejas ou onde quer que vás haverá sempre luz. Hoje encadeaste-me. Num sopro...

sexta-feira, outubro 01, 2004

"Beijando as lágrimas do mar"

"A voz do mar rouba-me o sentido das coisas.

Mas sabes?
Estou a roubar-lhe a voz.
E com ela molho as areias secas.

Nunca me dei conta que as areias eram aqui
tão imensas..."

Dionísio Vila Maior,
in Cântico Atlante.
Cabelos molhados... (insutentável delicadeza do desejo)

Estás longe. Cabelos molhados resistem ao vento. Hoje não te vejo. Esta noite vou escrever-te... só para mim. Vou abrir-te uma página onde te possas deitar com o queixo apoiado nas mãos e ver-me escrever, sorrir para mim. Cabelos molhados resistem ao vento. Enches-me as mãos de te não ver. Ardes. Combustão lenta em mim. És uma vela que se não derrete; não te consomes. Projectas os olhos na parede com a tua luz, fazendo voar sombras de um coração que está longe.

Sei onde estás. Dormes. Profundamente. Tens o cabelo espalhado em leque pela tua almofada. Respiras para a noite, não fechas a porta do quarto. Preferes deixá-la entreaberta. Cabelos molhados resistem ao vento. Agora dormes. Tão doce. Um anjo. Atravessas-me de manhã com os beijos feitos da luz que guardaste durante a noite. Está calor, hoje que não me sei sem pensar em ti.

Calma. O ar cansado. Tudo fica onde está, estático, nem o vento parece ter vontade de soprar. Sorvo o sopro de luz que hoje não tive de ti. À luz do dia. Longe, doce no rumor da noite. Saudades do teu acordar. Saudade do vórtice de ar que deixas atrás de ti e que te levanta no espaço os caracóis esvoaçantes. Cabelos molhados resistem ao vento. Não tive tempo de te querer, ainda. Estás ainda nos meus lábios. Segues-me, sentada neles. És luz. Ar... e água. Em mim. A minha tabela periódica dos elementos e das marés; a clave de Sol das minhas sinfonias compostas em Allegro e Presto. Cabelos molhados resistem ao vento.

És. De noite, de dia. És. Acordas-me, devagar, no rumor dos meus sonhos. Cabelos molhados resistem ao vento. Visto-te, e trago-te comigo. Olho-te, através da janela... és a primeira luz fria da manhã, tens um espelho nos teus olhos e na cor do teu cabelo. Desenho-te e pinto-te com palavras, que no entanto não me chegam para te acabar...faltam aquelas que não tenho ouvido de ti, ou tenho ouvido pouco. És. Já são frias as noites por aqui. Cabelos molhados resistem ao vento. Um dia. Depois outro, e outro... espero por ti. De noite. Um sinal de ti, para mim. Doce. Intermitente. Como um farol.

Hoje, há versos espontâneos na tua voz, há melodias perfumadas nos teus gestos. Eu sei. Eu sei. Horas. Amplas. Ao longe, recua a maré para dar lugar a uma onda maior que as outras. Rebentou. Hoje, as tuas mãos sorriem, rítmicas e oscilantes, às estrelas; há aroma de anjo no teu andar. Não te afastes da Primavera. Nem de mim.

Silêncio. Flutuante sobre a água. Ondas dispersas. O mar. Hoje a noite está quieta. E cabelos molhados resistem ao vento... resistem ao vento. Espero pelo teu gesto no olhar doloroso da Lua.

A insustentável delicadeza do desejo nasce do beijo com que o mar desprende as areias...

domingo, setembro 26, 2004

Trifásico

I

Ali. No canto... uma sombra tua deixou-me cair um sorriso, que me chegou embrulhado num pedaço branco de papel já gasto, já cansado de viajar transportando sorrisos. Olhei para ele. Esperei que pairasse à minha frente, suspenso, leve no ar quente da manhã. Apanhei-o, guardei-o bem junto a mim. Hoje ainda o tenho. Mãos que se olham, sempre, querendo entrelaçar-se todos os minutos. À noite. Calor. Hoje. No ar, a lentidão tépida que nos envolve em quentes abraços, a calma clara de luz que invade as paredes brancas dos quartos e os telhados dos prédios em redor. Uma manta no chão. Silêncio. Tu. Doce, à luz do ar. Beijo-te... Sei-te, de olhos fechados, sem mapas nem GPS nem outros sistemas de navegação. O único meio de que me sirvo são os teus caracóis escuros, ondeantes, abertos sobre um par de almofadas, no chão. Por eles caminho com os dedos, afastando-os para chegar a lábios que tanto quero beijar; por eles sei onde estás. Longe, ou perto... Com eles vou desvendando o silêncio que existe de manhã ao acordar. Páginas soltas, saudade nas linhas do papel onde escrevo.

II

À noite dormes. Tão longe... e distante. Fora de mim, de ti, de tudo o que está e que nos envolve. Completamente. Fecho portas entreabertas. Fecho aspas, chavetas, parêntesis curvos e rectos. Estamos sozinhos. Qual era o segredo? Dormes. Profundamente. Nem o vento que passa pelos teus caracóis abertos para a noite te faz estremecer, sequer um pequeno movimento de olhos. Dormes. Hoje não estás. Dormes. Eu sei, eu sei... tão doce, tão leve, suspiras para o ar a respiração que hoje conheço tão bem. Sigo-te. Para onde fores. E quando não puder ir, roubo-te um bocadinho do teu coração, levo-o comigo e guardo-o ao lado do meu... À noite dormes. Tão longe... e distante. Sei-te. Quando dormes perco-te. Não te sei. Tão longe... e distante. Bateu-me à porta o sono. Agora. Fecho os olhos. Vou dormir... agora. Até já.

III

Tu. Suspensa no vento quente de um fim de tarde. Tu. Adoro os sorrisos que usas. Sempre. E os olhos que vais acendendo, para eu te ver, ao longe, cheios da luz e da cor que tenho na palma da minha mão; trazidos no movimento claro de duas madeixas de ondas escuras que acabam de rebentar, desfeitas em espuma... Adoro os sorrisos que usas. Sempre.Abro a minha janela para o ar leve da noite. Espero ver-te passar, voando, perto daqui, só para te dizer que te quero. Muito. Mesmo que não consigas ouvir. Já o sabes. Sempre. Espero. Gosto de estar à janela em noites quentes. Sentir o calor de um dia subir em direcção à Lua. Abraçá-la para que não tenha frio, lá do alto, longe, onde só chegamos com os nossos olhares. Tu. Suspensa no vento quente de um fim de tarde. O teu cabelo ao Sol. Quero largar a caneta e correr à janela, espreitar para ver se estás... Quero ver-te à luz da noite.

terça-feira, setembro 21, 2004

1.5.0.9.0.4

Noite. De novo. Dois corações batem juntos debaixo da humidade fria de uma noite de Setembro. As palavras, com frio, juntam-se aninhadas em frases quentes, conjunções e locuções sobem pelo ar adentro. Olhares que se cruzam, primeiro longe, depois caminhando já em passos rápidos ao encontro uns dos outros. Intermináveis. Doces. Quentes. Na areal claro dos teus sorrisos, o mar de ondas negras levanta-se com a brisa que acordou já tarde na noite... Cascatas perfeitas de negros caracóis pendentes soltam a espuma vibrante na pele morena de ombros escondidos, longe de tudo, quase indiferentes. Ou quem sabe mais perto do que se imagina. Noite, ainda. Palavras que se atiram como beijos que se não deram ainda, que esperam ainda algures, impacientes, frenéticos, na fila de espera já longa de lábios que teimam em não se tocar... tanto para dizer. Tanto para olhar, tanto silêncio para se usar. Milhares de ondas escuras, aos pares, levadas ao vento, ainda por marear; tanto pôr-do-sol do outro lado para se ver... tanto, tanto...
Olhos descaídos. Aqui. Eu só...? Não. Um sorriso. Tu aqui. Ao meu lado. Presente. Finalmente. "Ele queria vê-la. Agora." E o agora tão perto, tão perto, depois do longe... Bastava esticar o braço, devagar, depois a mão; abri-la para a humidade fria de uma noite de Setembro, fechar os olhos, bem fechados, abraçar as pálpebras por uns segundos, não as deixar abrir. Noite. De novo. Depois das palavras, depois do fim, o retorno ao princípio. Uns segundos em rewind, sem ordem, sem regras; tudo ao contrário. Foi assim que nos reinventámos, que nos voámos para longe daqui... Beijámos juntos o indizível, aquilo que não nos dizemos nem para nós...
Noite. De novo.

A luz, o mar e o vento. Tu...
Abrir a mão e resgatar tudo isto do ar,
num grito e num beijo doce!
Abraça-me. Hoje.

De repente, na noite, de novo, no mar, o azul-trovão espelhado nas ondas de céu. A cor, o movimento de luz diante de nós. Tu.. eu... Parou o tempo! Só o espaço resistiu à explosão, sem ferimentos, intacto. Uma noite. A nossa. O plano-convexo de cada areal vazio, de cada olhar perdido no escuro de nós, hoje esquecidos. Tudo me sabe a ti, perto de estares aqui. Uma noite. De novo. De novo. De novo. Para sempre...

sexta-feira, setembro 10, 2004

Simetrias (noite)

O chão. A terra. De noite, a marca longitudinal do amanhã. O grito da luz, imagens difusas ao redor, volteando frenéticas; a humidade. Passos estridentes no silêncio das ruas. Paralelismos imperfeitos. Luar. Janelas e varandas que se debruçam do alto das telhas e quase nos atingem. Paredes frias, congeladas no tempo. Um rio ao longe, ou bem mais perto do que parece. Perto, a voz dormente de um corpo adormecido. Aqui e ali... ou por todo o lado. Toda a obliquidade prevista hoje não quis aparecer. Furacões a descansar. Cristais de um feixe de luz escura, invisíveis; cartas em branco espalhadas num mesa, sem selos. Praças mostrando o umbigo das cidades, quase perdendo a vontade de estar. Ficar. Adeus. Domingo à noite. Ou Quarta-Feira. Passos atrasados. Uma rua que sobe. Outra que desce. Não se encontram. Choram. Ninguém as escreve. E eu também não. Não há luz, dizem. Quero lá saber... Noite, sempre noite. Elas não sabem - é sempre a mesma - e eu não lhes digo. Música. Um gato escorrega ao sair de um caixote do lixo, depois da ceia. Parte o pescoço. Bem feito. Becos sem saída - é noite diante de nós. Alguém diz que num quarto escuro não se pode ver nada. Pura irresponsabilidade. Num quarto escuro pode ver-se a escuridão. Um rasto de tudo, espalhado pelos pontos cardeais. Chiu. Um casal que discute na rua; cospem-se. Merda. Ai. Chuva. Tanto barulho! Fora daqui, gritam todos. E de novo o turbilhão de ar que ousamos respirar, a onda gigante que teimamos em ver passar, em testemunhar... intersecções subterrâneas de mim, escondidas por uma derrapagem aventureira que acabou de ter lugar algures fora da minha janela. Silêncio. É noite. Tudo dorme. Tudo? Eu não, e tu? Cala-te. Não era para responderes. Burra.


quinta-feira, setembro 09, 2004

...consistências...

Chora. Não aqui, não ao pé de mim. Não suporto ver-te chorar. Procura outro sítio, outro lugar, outra escuridão que não a minha. Chora. Longe, onde não te possa ouvir, longe, bem longe daqui. Lágrimas. Tão doce quando se ama. Tão amargas quando se morre. Tu, ou eu só, envolto na maré de fumo baço ao rubro do teu olhar. Húmido, o chão que piso. Habito-te. Alto no ar, aninhado na rajada de vento mais forte. Chora. Mas não para mim. ou então fica, e deixa-me atirar-te um beijo pelo ar da noite.

Caminhos fechados. O luar. Portas, janelas. Correntes de ar que perderam a força, no último sopro que esmorece vivo em nós. Lábios. A primeira linha de defesa de uma fortaleza tantas vezes explorada. Costas fervilhantes, abertas para o Sol. Pele. O campo subjectivo exposto ao toque das mãos. Olhos. Vidrados na côr de outros olhos, simétricos, suspensos na luz que os habita e que teima em fugir para o escuro. Vozes que pairam, longe. O mar. Que outra voz existe tão profunda e intrigante? Azul, revolto, ondas tombantes em espuma. Areia. E de repente um calor esfusiante que vem de ti, no ar, em órbitas elípticas ao meu redor. Choras. Mas não aqui. Choras... onde estás? Chora, chora mais alto! que não te oiço e te quero ir buscar! Chora. Quero-te.

quarta-feira, setembro 08, 2004

De cor

Conheço o amanhecer
dos teus sorrisos.

Sei de cor todas as cores
que me dizes nas primeiras
palavras da manhã.
Tenho a sede da música
que cantas quando abres
os teus braços para mim.
Bebo cada movimento do
teu cabelo, que parece
não ter fim na doçura
e na magia que se levanta
e voa no ar...

Sei-te de cor,
fecho os olhos e voo contigo.
Sei-te de cor,
abro uma página para ti
todos os dias e escrevo-te
um beijo no ar.

Sei-te de cor no meu
coração, nas minhas mãos,
nas minhas lágrimas...
(Blag)

Pensei em ti. Hoje. Desenhei-te, pintei-te, escrevi-te, de mim para mim. Esculpi-te numa pedra de mármore branco, mas um mármore quente e doce, bem diferente de todos os outros. Amei-te, e olha que lá no fundo eu nunca amei tanto assim... Pensei em ti. Sonhei-te, esta manhã, mesmo antes de o Sol me puxar do sono, dos teus braços, hoje mais envolventes da tua ternura. Desvendei-te. Fui descobrindo passo a passo as ondas do teu andar, do teu olhar, do teu mar revolto de segredos. Acordei-te. Acordei-te a meio da noite por te querer de volta, por te querer tanto para mim, por querer tudo o que é teu e tudo o que tocas... Sim, eu sei, acordei-te a meio da noite, mas fi-lo por ter medo de te ter tão longe de mim, por não saber onde estás e por onde andas enquanto dormes. Escrevo-te. Absorvo-te e respiro-te... Dou comigo a pensar em ti com todas as minhas forças, a desenhar-te uma ponte que possas atravesar para me vires dar um beijo. Reinvento-te. Sobrevoo-te. Olho para ti como se te olhasse a última vez antes de partires... Acendo-te. És toda a minha luz, és a vela que acendo para te escrever e para te pensar... Viajo-te, incessantemente, descubro-te de olhos fechados, para te conhecer. Dos teus cabelos aos teus olhos, dos teus sorrisos à pele escura dos teus ombros, imagino-te. E depois amo-te.