terça-feira, julho 06, 2004

Para ti, o Mar


Acaricío uma vez mais
a doçura das tuas palavras.
A pulsação das tuas sílabas,
um manso prado de águas.
O canto do teu olhar vem-me
seguindo, vem dos lados do mar...
E eu estendo-me ao sol,
no deserto areal de uma praia
num fim de tarde.
Nada está completo sem ti,
sem o silêncio musical dos teus
olhos negros que escutam
a luz da manhã
varrendo o mar...

Quero segurar-me às tuas mãos:
Elas são o sangue
que faz bater o meu coração.
No meu desejo, o sono chegava.
O sono junto a ti, para sempre...

Para mim, o teu olhar quente e doce...

Para ti, o mar...

Ofício triste, o do mar:
trazer-me toda a tua saudade,
que me faz olhá-lo,
à espera que te traga também.

Com as tuas palavras,
com a boca,
com os olhos,
com os dedos,
tenta tocar nos segredos do meu coração.
Outra vez.

segunda-feira, julho 05, 2004

Canto Nocturno


Repousar na cor profunda
dos teus cabelos como quem
se deita no calor da areia,
ao Sol...

Deixar cair a cabeça
no teu colo
e esperar, esperar
ardentemente
por um beijo teu...

Espero por esse sorriso
que tarda em chegar!

Respirar-te durante a noite,
correr à janela
para te ver passar...
Tocar no teu cabelo com os dedos
como se tocasse nas cordas
da minha guitarra...

Gritar, chorar por ti!
Respirar, suspirar...
(Eis a sequência lógica
de corações enamorados)

Ah, como te queria comigo agora!
Sentar-me perto de ti,
olhar-te... sorrir para ti,
chamar por um sorriso teu,
um beijo, uma palavra,
uma lágrima... de ti,
tudo serve para me fazer feliz!

Mas se tudo isso me falta...

Esta noite, quero o escuro
dos teus olhos castanhos.
Quero a seda esfuziante
da tua pele morena...
Sonhar.. sonhar com os caracóis
dos teus cabelos
e neles ver a força
da espuma revoltosa
das ondas do meu Mar-Coração!

Como as ondas se precipitam
para terra,
assim também eu corro para ti...

Envolver-te como nos envolve
o frio da areia
neste noite feita de luar,
da cor inebriante do teu amar...

Para ti...
Para ti, meu amor,
minha estrela da tarde,
o meu canto nocturno..


Existe um lençol de maresia
em cada cantinho
do nosso areal.
Um manto de palavras
feitas de ondas,
de areia,
de marés viajantes.

No nosso lençol de maresia
fomos, de olhos entrelaçados,
descobrindo as nossas palavras...
nelas ouvimos breves suspiros
lançados do outro lado
das ondas do mar.

Hoje, caminhámos descalços
à beira-mar...
Hoje, guardei-te um cantinho
no meu areal...


foto de Paula Morna - Ilha do Sal, Cabo Verde
Respirei de noite um sorriso
perfumado que te pertencia...

Depois, amei-te outra vez,
vi-te sorrir, do outro lado
das ondas do mar...

quinta-feira, julho 01, 2004

Queria um sorriso teu
em cada verso que escrevo...

Em cada poema,
um olhar quente
e doce, com que acordo
todas as manhãs...

quarta-feira, junho 02, 2004

Aurora de recortes


Quis abraçar a tua
onda de seda
que se desvendou
de um recorte teu...

O teu repuxo de
cristais e água...
Uma chama azul
que explode em mim!
Os teus estilhaços
que se apertam contra
o meu coração.

Tu...
A aurora que descansa
em mim todas as manhãs...
A minha estrela cintilante,
o meu outro
sonho,
ondulante...
Fumo ou Água?


Fumo ou água?
Do vazio de cores rítmicas,
a dança inebriante
dos nossos círculos frenéticos.
No meu infinito, um
horizonte de auroras
esfusiantes.

Fumo ou água?
Tu aqui, ou apenas
a marca indelével
de um beijo teu?

Fumo...?
Ou água?

terça-feira, maio 25, 2004

chuva em mim

Queria guardar uma gota de chuva,
para sempre.
Meus olhos secaram as lágrimas,
as mesmas que me desciam o rosto
e que agora se perderam.

Já não as tenho...

Perdi-as, por ti...

Queria guardar-me
uma gota de chuva,
para chorar
pelo teu regresso,
como choram as nuvens
quando perdem um anjo...

Estrela Minha

Sabes...?
Tenho diante de mim uma estrela.
Vejo-a da minha janela
aberta para a frescura desta noite.

Queria contar-te,
mas quando te sinto perco
as palavras nos bolsos
da minha paixão.
Apenas as reencontro nos sonhos...
Neles, sonho uma estrela de prata,
que brilha à luz do teu olhar.
Brilha, em sonhos feitos das nuvens
que povoam o nosso céu.

Que brilhe sempre para ti,
para que brilhes sempre,
para mim...

Hoje, sonhei uma estrela.

Sonhei-te.

Lágrimas

Caminhaste, olhando o chão...
Correste para te vires sentar
no areal imenso
que beija e abraça as ondas
do mar.

Sentaste-te, olhando para mim.
Quiseste falar,
mas respiraste apenas...
e sorriste.

Uma lágrima saltou,
fugiu caíndo da mágica
negritude dos teus olhos.
Caiu, e foi então que
na areia se abriram dois braços,
dois braços nus,
que a envolveram na quente
ternura da areia.
Entre dois pequenos braços,
a tua lágrima adormeceu.
Olhaste e sorriste...
E eu abracei-te,
para sempre,
sentado na areia que
beija
e abraça as tuas
ondas do mar...

quinta-feira, maio 20, 2004

Volta

Salvei-te!

Antes que caísses,
estendi a mão para
te amparar...

Olhaste-me, suspensa.
Os teus olhos abriram-se
então para mim, negros
da paixão
que te aquece o rosto.

E da palma da minha mão
voaste livre,
para o sol imenso
que agora se deita
com o mar.

Salvei-te!
Voaste...
volta!

A nossa praia

Na praia dos teus sorrisos
deitei-me no imenso areal
ao relento, a chorar...
Nenhuma palavra secará
as minhas lágrimas.
Por isso, espero ainda...

É fresca a noite.
Cubro-me dos mantos
do toque que sinto
do teu respirar...
Ouço um murmúrio soluçar.
"Pergunto ao vento que passa"
notícias do meu amor.
Não responde.
Saberá ele que és doce
e que voas para além
do alto do nosso olhar?
Não sabe.
Sei-o eu...
Sei que desaguas
em mim e abraças
o nosso mundo,
fechando-o em nós,
sorrindo sempre...

Quis dizer-te um segredo
na praia dos nossos ouvidos...


O que disse?

eu
sei...

quinta-feira, maio 13, 2004

Tu...

Encontrei uma sombra no meu deserto desconhecido...
Encontrei-te.
Tenho-te.
No "coração
do meu
coração..."

terça-feira, maio 11, 2004

Olhares...


Não, não preciso de te tocar...
Basta-me seguir-te com o olhar,
pousar docemente a minha vista em ti,
para que se inunde, para que eu te veja,
apenas...
Sim, ver-te apenas...
Não peço mais, apenas ver-te sorrir...
Depois, pedirei que sorrias para mim...
E então voltarei, voando, porque assim sorriste.

Não, não ouso tocar-te...
Amar-te-ei apenas VENDO-TE sorrir,
na dolorosa distãncia de um olhar,
num céu de cores infinitas,
numa noite quente de luar...
E quando sorrires, num segundo apenas,
meus olhos vão chorar,
por mim.

Eu sei...
Sei desse mar revoltoso que me habita!
Dessa ânsia de te ver, de te encontrar!
de te descobrir, de te desvendar,
de ouvir-te calada, de ouvir-te falar!
de te ter presa, mas voando alto, num olhar...
Num olhar...
em olhares...
AH, doces olhares que faíscam no céu,
doces olhares que me fazem teu!
doces olhares que vejo em ti,
brilhando nos teus olhos,
nos teus olhos negros...
Ah, se eu pudesse abraçá-los,
tê-los para mim, só para mim!
Guardá-los bem no fundo de mim,
no fundo de nós,
só para nós...

Assim, ter-te-ia para sempre...
a ti, aos teus
doces
negros
olhares, doces olhares...
doces...

sexta-feira, maio 07, 2004

"Menina dos olhos tristes"

Música: Adriano Correia de Oliveira
Letra: José Carlos Ary dos Santos

Menina dos olhos tristes,
o que tanto a faz chorar?
O soldadinho não volta
do outro lado do mar.

Vamos senhor pensativo,
olhe o cachimbo a apagar.
O soldadinho não volta
do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear?
O soldadinho não volta
do outro lado do mar.

Anda bem triste um amigo,
uma carta o fez chorar.
O soldadinho não volta
do outro lado do mar.

A lua que é viajante
É que nos pode informar.
O soldadinho já volta
está quase mesmo a chegar.

Vem numa caixa de pinho,
do outro lado do mar.
Desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar...

segunda-feira, maio 03, 2004

Música de sentir


Hoje amei-te... enquanto não vias.
Hoje amei-te... enquanto me olhavas.
Hoje amei-te... enquanto me amavas...

Ouvi a tua música no silêncio que me habitava. Ouvi, mudo, olhando apenas o escuro do quarto, tacteando à  minha frente, a medo, à procura, quem sabe, de um indí­cio teu. Queria o silêncio absoluto, para melhor te ouvir. Escondi-me de mim, não respirei e fechei os olhos. Como era longínqua e fraca a música que sentia... Era como se soubesse que existia, mas não sabia onde... Agora, baralham-se-me as palavras, atropelam-se correndo e tropeçando para me ajudarem a explicar... Mas a explicar o que? Explicar aquilo que só o silêncio e a tua música, que hoje sinto, conseguem explicar.
Canta, canta para mim...
Até te ouvir, não acreditava que tal som pudesse existir, sequer ser pensado, ou sentido...

Da minha paixão, só eu sei.
Do fogo em que ardo, só eu sei.
De ti, apenas música escutei...

Enfim, adormeci... adormeci profundamente, caí num sono de paz, embalado por uma música que mal conseguia perceber... E adormeci. Lá fora, o calor do dia subia em direcção à  lua, quem sabe para a proteger de uma noite fria, envolvendo-a em abraços quentes, redobrando o seu brilho, para que nos ilumine em noites de silêncio, como esta.
E não sonhei, dormi profundamente horas e horas, mas sentia que a qualquer momento podia acordar, porque enquanto dormia, ao luar, a tua música foi-se aproximando, tornando-se mais perceptível, mais clara, mais pura... Mas não era ainda o momento, ainda não estava suficientemente perto... faltava ainda.
Eu queria acordar, queria levantar-me para te procurar! Mas dormia ainda... Queria correr, correr atrás dessa música que me fascinava, que me invadia, que me percorria o corpo em sobressaltos! Mas dormia ainda... Era noite...

"A noite passada acordei com o teu beijo...
Cantavas sou gaivota e fui sereia...
Então olhaste, depois sorriste...
Abriste a janela e voaste..."
É dia, foi noite, aqui, ali...
Vieste, cantando, e eu não te vi...

Acordei finalmente, com um beijo quente, que me tirou do sono em que me via preso... Estava preso de mim, estava preso de ti, porque quis procurar-te e não consegui... estava simplesmente preso, se é que se pode estar simplesmente preso... Senti então a tua música aproximar-se, cada vez mais alta, para mim, até que a porta do quarto se abriu diante de ti, diante da tua música, como se ela própria pudesse sentir, em cada veio da madeira, em cada farpa os sons, os tons de que é feita a tua melodia... E porque não?? Afinal, também ela é, foi (que importa?) parte da natureza.. A mesma natureza sublime, Absoluta, que te pôs aqui, a cantar, flutuando, para mim.
Até te ouvir, não acreditava que pudesses existir, não alguém como tu, que me pudesse embalar, deixar num puro estado de sono, mas adivinhando cada passo teu...
E agora escrevo-te, amo-te, escrevo-te de novo! reinvento-te, para que me não possas fugir... E eu sei... não me vais fugir... voltarás sempre, para mim... Agora que te sei, que te ouvi, que escutei a tua música de sentir, quero-te para sempre, cantando, perfeita.. Agora que te conheci, quero-te para mim...
"PARA QUE NUNCA MAIS..."
E cantando saí­ste pela janela, voando... É já de dia, o sol aquece... voltarás, quando o calor me deixar, nos deixar... E hoje vejo, escuto, sinto, provo a tua música de sentir, doce sempre, quente sempre...

segunda-feira, março 29, 2004

Na escuridão vi uns olhos verdes,
verdes cristalinos aproximarem-se.
Depois, clareou o dia, imenso de luz.
E os olhos verdes desapareceram...
Mas... não os tinha visto eu?
O que foi que eu vi?

(Foi a transparência fugitiva de um mundo,
um outro mundo, que existe como nós,
suspenso, pairando. E de quando em vez
aparece-nos, como hoje a mim,
para que partamos a descobri-lo...)

Mas porque será que nunca ninguém
conseguiu descobri-lo?
Que nos falta a nós para ver de novo
aqueles olhos verdes voando dispersos?
Serão precisos óculos especiais,
uma lente super-potente?
O quê, pergunto eu...
Mas eu deito-me, tomo banhos de luar,
olhos as estrelas em cima; olho para nós,
em baixo...
Comovo-me com tudo isto
que se depara diante de mim...
e tenho esperança...
E de novo vêem os olhos verdes para mim,
sobrevoando-me, levando-me com eles.

E eu vou, infinitamente...
Não, não vás por aí!!
Volta para trás...
Quem te disse que era esse o caminho?
Quando te disse que podias escolher,
não era para ires por aí...
Não te ensinaram, por acaso,
que deves escolher sempre o caminho
por onde os outros vão?
Por que é que quiseste ir tu, sozinha, por aí?
Não vás que não podes?
Aqui todos vão por onde todos vão...
É assim... sempre foi, e será...
Os que tentaram, como tu,
não passaram daqui,
foram até onde os deixámos.
Aconteceu-lhes sempre qualquer coisa:
ou foram perseguidos,
ou eram doidos,
ou eram bruxas,
e feiticeiros, e marginais,
desregrados, animais...
Ou sofriam de doenças terminais,
ou foram assassinados,
e foram censurados...
E tudo porque, como tu, quiseram escolher este caminho,
de onde, hoje, te fui obrigado a expulsar...
A culpa não é minha, bem vês...
Uns dirão, a medo, em surdina:
"É o sistema..."
Outros dirão:
"Não chores... Volta para trás,
aceita, resigna-te, esquece.. há-de passar um dia..."
De qualquer modo, a tua palavra não será esquecida,
a TUA tentativa não será esquecida...
viverás aqui, entre todos aqueles que tentaram,
que esperam ainda que os outros (que seguiram, que aceitam)
se esqueçam deles,
para poderem tentar outra vez...

Não desistas,
escolhe o caminho, que eu fecho os olhos...
Liberta-nos...
"Sê feliz, sê feliz para ti...", disse ele, enquanto olhava pela janela, para o horizonte. No outro lado do quarto, ela, sentada na cama, num canto escuro, sentiu o eco das palavras viajar-lhe o pensamento.
E ali, separados, um na luz, o outro na escuridão, amaram-se profundamente, ligando-se num feixe de luz clara e faí­scante...
Despedida

Direi apenas ao despedir-me:
Adeus, até ao meu regresso...
Partirei enfim distante, sem destino,
para a encruzilhada do Nada,
para o encruzamento do Ser,
da imensidão infinita do interior de todos nós.
Partirei enfim, distante...
Quem ficar, ver-me-á afastando-me
para sempre, talvez, ou para voltar a correr,
chorando ao vento lágrimas pesadas.
Partirei sozinho: não preciso de ninguém ao pé.
Quero ir sozinho, sozinho.
Quero a aventura imaginária isolado de mim,
buscando aquilo que sou,
ou o que todos somos, indiferentes a todos,
retrospectivando as expressões superficiais,
nesses magníficos Dias Atlânticos.
Partirei, pois. Partirei sozinho
e direi apenas ao despedir-me:
Adeus, até ao meu regresso...
E que não seja breve o regresso...
Que fique em mim sempre a ânsia de viver,
a ânsia de procurar, de ver-me crescer.
Que fique em mim sempre o Desejo...
Esse desejo das noites de Inverno,
O simples Desejo, o simples desejar...

Mas não queria fazê-lo sozinho...
Eu quero desejar contigo,
a teu lado somente, contigo...

Mas não, não tenho coragem de te pedir.
Não i­as querer, não tu.
Eu não te amaria, desejar-te-ia apenas.
Por isso não te levo comigo: deixa-te ficar
Meu anjo... não, não te vou acordar..
Despeço-me de ti com um olhar,
um olhar basta... diz tudo.
Direi, pois, ao partir:
Adeus, até ao meu regresso.

revejo, relembro agora...
Percorro a memória com a própria memória.
Reconstruo um puzzle sem peças,
um muro sem pedras,
uma ponte sem pilares...
Mas afinal, que faço eu?
Não seremos todos
um puzzle sem peças,
um muro sem pedras,
uma ponte sem pilares?
Que é a existência do ser senão
um resumo do Nada?
O que é?

(Não... não tentes perceber,
não tentes... o que importa é esquecer.)

Esquece tudo, e recomeça.
Esquece tudo, e revive.
Esquece tudo, e verás.
Dirás, então, como eu, ao partir,
chorando as lágrimas pesadas
de que te falei:
"Adeus, até ao meu regresso..."
E assim é esquecer,
esquecer é partir, para sempre,
para o vazio do Ser,
para o vazio de Nós...

sábado, março 20, 2004

Eu queria chorar, muito chorar.
Queria chorar de felicidade, chorar de amar.
E queria abraçar-te para não mais te largar,
unir-me a ti num laço invisí­vel,
construir-nos uma amizade indivisível.
E não consigo chorar.
Os sóis nascem e poem-se sucessivamente,
as noites mancham o céu ardentemente...
As marés vão; o sonho vem,
flutuando, pairando no ar suspenso
por fio de côco... mas não cai,
voa sempre, voa sempre...
Voa, como nós, voa...
Simplesmente voa, em voos picados,
em voltas supersónicas... para depois nos bombardear
de esperança, de força, de sonho.
E o sonho constrói o sonho...

E eu queria tocar-te, beijar-te indecentemente,
amar-te simplesmente...

Queria chorar contigo, sonhar contigo,
voar contigo, mas não consigo...

Eu queria chorar, muito chorar!!!
E condensar o mundo num só grito!!!
E moldá-lo, esculpi-lo à  nossa maneira...
Desenhar um vale só para ti,
só teu, como um jardim proibí­do...
Um vale de cascatas, de recantos,
de sons, músicas e profundos prantos..
E amar-te demais, chorar-te!

Mas não consigo...

Por isso choro para dentro, impludo
em lágrimas que caem em mim.
Lentamente, caem no abismo
escuro e sombrio do meu Ser.
Caem para sempre, inundando o meu ver...
Esperam as lágrimas que um dedo teu
as seque, para que a tua luz de ouro cegante
se transforme em diamante,
e acenda de novo o esplendor do meu amor errante...

Agora choro, choro demais, para ti...
correm as lágrimas descendo o meu rosto,
correm teus dedos como nunca vi...
Assim corro eu com força de ti, chorando de mais...

Para ti...

sexta-feira, março 05, 2004

Escuta... não ouves?
são suaves melodias
entoadas pela frescura da água
que desce este vale e nos abraça...
São ecos moribundos profundos de mágoa
na ternura atlântica de longí­nquos dias.

Suspiram silenciosamente as árvores deste bosque,
murmúrios para o ar frio da noite atiram!
Será que choram? Será que gritam?
Na sua voz de sempre
chamam por mim e por ti,
tristes, solitárias,
em lentos movimentos imperceptí­veis,
agitam os ramos ferozmente como nunca vi...
São muralhas intransponí­veis observantes
são entes pensantes,
são prova de amor do que vivi...

Vivem as árvores dos nossos verdes bosques,
vivem em tons de verde princesas da natureza,
vivem presas na terra mas recusam a incerteza...

Escuta... não ouves?
Sou eu que gemo e grito,
sou eu que soluça e chora!
Atiro-me contra as paredes!
Tu evaporas em mim a cada hora,
e adormeces comigo e não te vais embora...
Mas eu pontapeio frenéticamente o ar!
Mordo os lábios para me amordaçar!

Mas vejo-te, sinto-te...
Sonho-te, desejo percorrer os teus caminhos secretos,
desejo o simples desejar,
desejo o clarão da madrugada junto ao mar...
mas desejo apenas um olhar.
Sentado à fraca luz vou escrevendo
simples versos deste amor que vou vivendo...
Escuta... não me ouves?

sábado, fevereiro 21, 2004

Ter amor à  vingança
É ter ódio à esperança!

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Tu, sempre tu...
Imensamente tu...
Vejo-te de longe, sorrindo,
amando este campo, fugindo.
Sonho mundos flutuantes,
sonho distantes clamores, amantes!
Sento-me por aqui, viajo ali,
voando... cantando e contando
os dias sem cessar... vejo-me de longe,
ao escuro, sozinho, chorando.

Tu, sempre tu...
Imensamente tu...
Um lindo olhar reflectido sobre o luar,
mágico, apaixonante...
Sonhos que sonhei, o que são?
Marés violentas de luz e vida
que nos inundam, talvez, de dor!
Eu quero o fresco clarão do novo dia,
eu quero o sonho inocente de uma criança,
eu quero olhar de novo por um passado,
viver-te em sossego e sonho demorado,
quero despejar as gavetas do Ser
em cima da cama, quero escrever, viver,
eu quero um grito! Quero tudo!
E não quero nada...
Não quero nada.
Que quererei eu da (in)coerência lógica do discurso?
Viver escondido numa manhã abandonada?
E respirar o vento que sopra da nova alvorada?

Tu, sempre tu...
Imensamente tu...
Aproximas-te flutuando no meu espaço vazio,
atiras-me soprando um beijo fugidio,
falas sussurrando, sorrindo, perfumando-me
de um êxtase inebriante, explosivo.
Como manhãs de nevoeiro,
tardes de oiro e noites de negro cetim...
O desejo crescendo, contagiante, puro marfim!

Assim és tu... um lindo verso, obra-prima inacabada.
Imensamente tu, esgotante, um sopro no coração,
interminável no infinito, rainha
e princesa, doce alma de tamanha paixão...
Imensamente tu...
Sempre tu...

[ao som de jacques brel - amsterdam
"Dans le port d´Amsterdam,
Y a des marins qui chantent..."]

sábado, fevereiro 14, 2004

Durante dias e noites, amor, te vejo,
sempre sorrindo, sempre me olhando.
Pois são teus olhos e beijos que desejo,
pois é com o teu amor que ando sonhando.

"E é amar-te assim perdidamente",
como te amo, que me faz viver.
É querer-te assim tão profundamente,
É tocar-te devagarinho que me faz renascer.

Porque tu és luz infinita, tu és vida,
porque tu, sim, és a alma escolhida.
Amar é viver, acreditar e sarar uma ferida!

Que amar seja a nossa missão,
que amar seja o triunfo do coração!
E que um dia me estendas, enfim, a mão!

sábado, fevereiro 07, 2004

"Serei tudo o que disserem...! Poeta castrado, NÃO!!!"

José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, fevereiro 03, 2004

Chuva.. gotas ardentes de veludo e hesitantes,
caÃídas de céus avermelhados e revoltantes,
enchem de novo fulgor meu pobre coração:
procuro, sozinho, alguém que me dê a mão.

Eu canto o vento de uma nova liberdade,
eu vivo vivendo em infinita contrariedade,
eu gritei em silêncio quando me vi perdido!
E choro gritando por um amor sentido...

Sinto de súbito subir-me o sangue,
vermelho, vivo, valendo a vida,
percorro assim meu rosto exangue,

sinto enfim o calor de uma página lida.
Suspiro então teu nome numa canção!
E amo-te assim porque me deste a mão...

terça-feira, janeiro 27, 2004

... E aos dias seguiram-se as noites... e nada. Mas ele esperava. Sentado, deitado, em pé, ora olhando para o chão, ora tentando olhar para dentro de si. Sentia uma estranha força a prender-lhe a respiração, como se um peso se apoderasse dos pulmões e não deixasse sequer acalmá-lo para poder ganhar um novo ânimo e conseguir enfrentar a realidade... a sua realidade. Mas depois vieram as lágrimas. Muitas. Como um rio recém-nascido da nascente-mãe, com toda a força, a força de uma vida. E chorou... chorou como chora um poeta, de dentro para fora, sem ter medo que lhe vejam o brilho triste do seu sofrimento. Ele não... ostentava as lágrimas com orgulho; perdia-se em sentimentos que nem ele podia explicar. Sentia setas cravadas bem fundo no seu coração já murcho de tanto amar. Porque ele amava. cada minuto, cada dia, cada segundo da sua vida... mas também a amava, e ela não o podia amar. E ele chorava ainda mais, soluçava... e agora gritava!... mas ela não o ouvia...
Semanas depois, abriu os olhos, lentamente, como se as pálpebras se tivessem, enfim, separado depois de uma vida enamoradas uma da outra e não quisesem mais viver intermitentemente, resistidno à separação. Teve a sensação que ela ia entrar no quarto... deixou-se ficar deitado, no silêncio do bater do seu coração, à espera. Enquanto esperava, deslizou a vista pela porta, desejando vê-la abrir-se. Depois descia, contornando ao mesmo tempo com a memória as formas do corpo dela, natural, perfeito, como se a Natureza a tivesse posto no seu caminho para preencher o vazio de uma pobre alma, da alma dele... mas o vazio voltava e ele... pobre de novo!... e assim viveu, viveu, viveu... e amou, amou, amou...
Ao Mar de sempre... ao Mar da minha vida, imenso...

O mar...
tão salgado em seu esplendor,
enche-me o peito de dor
quando de ti me quero lembrar.

O mar...
tão violentas suas ondas,
e tu, quantas mentiras me contas...
quando me queres enganar.

O mar...
tantas são as TUAS cores...
em pequeno fazia-me tremores...
como tu, pois nao me queres amar...

sábado, janeiro 10, 2004

Acordei: e na áurea luz da alvorada
vi um Anjo sublime vestido de prata.
E cantava, voava altivo sobre a amurada,
em paixão marinha... em incerta data.

Em dias de luz e eterno calor
demos as mão enternecidos no olhar,
fizemos promessas e juras de amor,
unimo-nos juntos somente para o amar.

Mas o mar da vida mudou a maré,
e uma onda maior arrastou-te de mim.
A luz esmorece...eu não ouso por-me de pé.

Por isso, volta, volta que eu espero por ti!
Lá fora chove, está frio e eu não te vi...
O meu coração chora... e eu aqui choro por ti...