Segunda-feira, Setembro 15, 2008

indiferentes ao desejo
indiferentes ao frio
os ombros escolhem as mãos
duas mãos apenas
que não escureçam
as ruas onde estás não escurecem
apenas a noite
os olhos abertos
o rumor
os rumores abertos
entre os passos
cobertos os espaços
de ti
hoje não estás, hoje não és
assim, um corpo
margens brancas
planície sol aluvião
o mar é uma colina verde
o mar é todo o sangue
que não se perde
deixa ao menos um pouco de ti
no fundo dos meus braços
no fundo do mar

deixa ao menos um pouco de sol
o inverno que não acabe
nunca
indiferentes ao desejo
as noites passam debaixo
da minha janela,
essa luz tão fria
a cegar-me os dedos
esses dois braços
que eu queria
e no fim deles duas mãos
que não escureçam
duas mãos e o arco que descrevem
como se a lua tão perto

que ausência a tua
com quantas letras se escreve
a palavra longe, com quantos dedos
se contam três mil quilómetros,
tu
a meio dia do outro lado da terra
e os meus braços
que não chegam
dois braços
simulando os espaços
a meio caminho do desejo.

Quinta-feira, Julho 19, 2007

The Gossip - Listen up

Quarta-feira, Julho 18, 2007

Há música lá fora

The Smiths - The Boy With The Thorn In His Side

Sábado, Novembro 05, 2005

Gostava de ficar alguns minutos a olhar o verde do céu, depois o azul, o cinzento, ver passar o vento quente, depois esse que vem frio, gostava de ver cair a chuva, depois olhar para uma gota que fazia parar no ar, suspensa, e dizer, Aqui estás tu, lá em baixo estou eu, e depois fazê-la cair no chão seco, como alguém que espera um beijo. Era nesses dias que gostava de se sentar, ver passar o fio do tempo recortado por essas palavras que dizias, soltas ou entrelaçadas, húmidas se tocavam os teus lábios, secas se vinham como um grito, mas sempre querendo ir buscar-te ao fundo desses dias onde gostavas de te sentar, sem nada que ouvisses, sem nada que visses ou quisesses ver, e levava-te por um abraço, mais ou menos apertado, mas sempre esses braços cingindo-te, resgatando-te. Gostavas de ficar alguns minutos a olhar o verde do céu, depois o azul, o cinzento, um dia destes acordaste e viste-o branco, no outro dia anoiteceu pintado de laranja-claro, e foi um sonho que tiveste, não sei e não sabes se por causa da cor do céu, se por causa dessa lua que te chamava. Sonhaste que ela vinha também, não a lua, mas uma voz que tinha uma boca, uma boca que tinha um rosto, rosto que tinha um cabelo e pescoço, um cabelo e pescoço que tinham ombros e peito onde cair, esses ombros de que falo e que tu queres e esse peito de que falo e tu queres tinham uma cintura, essa cintura, acaso os teus olhos desviam para lá o olhar (secretamente), não termina nunca, logo logo começam as pernas, sem que disso te apercebas, brancas de marfim, e essa voz que tinha um corpo era ela, era um corpo que tinha uma voz, uma música, um embalo onde te pudesses sentar e ver as cores do céu passar, não sozinho nem adormecido já, mas junto a esse corpo que tem uma voz, a essa voz que tem um corpo.